
O poder do OFF: comunicação responsável exige preparo
Experiência em app de transporte expõe problema: opinião é direito, mas informar com qualidade é dever
Uma viagem de aplicativo em Campo Grande expôs problema recorrente na comunicação: o abismo entre liberdade de opinião e responsabilidade informativa. Sem escolha de desligar o rádio, o passageiro vira refém de análises rasas que confundem comunicação com barulho.
Quando o microfone vira megafone vazio
O rádio do motorista estava sintonizado em emissora FM local. O locutor comentava a situação política da Venezuela com frases de efeito, referências vagas à geopolítica e conclusões apressadas.
Nenhum contexto foi apresentado. Nenhum dado foi checado. A análise consistia em opiniões pessoais embaladas como informação, sem qualquer compromisso com esclarecimento público.
Passageiros de app não podem desligar o rádio. Consequentemente, ficam expostos a conteúdo que não escolheram ouvir, sem possibilidade de questionar ou buscar fontes alternativas naquele momento.
Liberdade de opinião não dispensa preparo
A liberdade de expressão é pilar democrático e deve ser defendida. Contudo, comunicadores com acesso a plataformas públicas carregam responsabilidade proporcional ao alcance de suas vozes.
Opinar sobre Venezuela, eleições americanas ou qualquer tema complexo exige mais que convicção pessoal. Exige leitura, checagem de fontes, compreensão de contexto histórico e clareza sobre o que é fato e o que é interpretação.
Análises públicas não podem ser tratadas como conversas de bar. Ademais, quando alguém assume o microfone em rádio, podcast ou rede social com pretensão informativa, assume também dever ético de não desinformar.
O público como refém involuntário
O passageiro de aplicativo ilustra condição mais ampla: parte da população consome informação sem filtro crítico ou acesso a fontes diversas. Muitos dependem do rádio, da TV ou de perfis de redes sociais como única janela para o mundo.
Quando essas fontes entregam análise rasa, conspiração ou simplificação grosseira, contribuem para empobrecimento do debate público. Portanto, a responsabilidade do comunicador aumenta quanto mais vulnerável for sua audiência.
Respeito ao público começa em reconhecer limites do próprio conhecimento. Ninguém domina todos os assuntos, mas quem ocupa espaço de comunicação precisa saber quando deve estudar antes de falar ou quando deve ceder espaço a quem entende.
Comunicação de qualidade exige responsabilidade
Comunicação responsável distingue opinião de análise. Opinião pode ser livre, mas análise precisa de método, checagem e honestidade intelectual sobre incertezas.
O “ON” permanente — microfone sempre aberto, opinião para tudo, análise instantânea — cria ruído informativo. Similarmente, prejudica quem busca entender o mundo e reforça polarização baseada em desinformação.
O poder do OFF não é censura, mas reconhecimento de que nem toda opinião merece megafone. Escolher silêncio momentâneo para estudar, ouvir especialistas ou simplesmente admitir desconhecimento é ato de maturidade comunicativa.
Opinar é direito, informar com qualidade é dever
A experiência no aplicativo terminou sem confronto. Por educação e respeito ao motorista, o passageiro permaneceu em silêncio. Contudo, a lição permanece: comunicação pública exige preparo.
Não se trata de proibir opiniões ou exigir diplomas para falar. Trata-se de cobrar responsabilidade proporcional ao alcance da voz. Ademais, trata-se de defender que o público merece análises honestas, não performances rasas.
O direito de opinar é amplo. O dever de informar com qualidade é inegociável. Portanto, escolher o OFF em momentos de incerteza pode ser mais ético que transformar ignorância em certeza no ar.
Última atualização em 6 de janeiro de 2026
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