
Mercosul e UE fecham acordo comercial histórico após 25 anos
Assinatura marcada para 17 de janeiro cria a maior zona de livre comércio do mundo, envolvendo 700 milhões de pessoas
Depois de um quarto de século de negociações, o Mercosul e a União Europeia selaram o acordo comercial que promete redefinir as relações econômicas entre os blocos. A assinatura oficial está marcada para 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai, conforme confirmado pelos ministérios das Relações Exteriores do Brasil e da Argentina.
Maior zona de livre comércio do mundo
O tratado criará uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, abrangendo mais de 700 milhões de pessoas e reunindo trilhões de dólares em PIB. O Conselho Europeu aprovou o texto na sexta-feira (9), superando resistências de países como a França e garantindo a maioria qualificada necessária para o aval.
A implementação será gradual, mas o impacto econômico é imediato na confiança dos investidores. O acordo prevê a eliminação de tarifas sobre mais de 90% das mercadorias comercializadas entre os dois blocos ao longo de 15 anos.
Para o Brasil, o tratado representa a oportunidade de diversificar parceiros comerciais e reduzir a dependência da China. Além disso, abre portas para investimentos europeus em setores estratégicos como infraestrutura, energia e mineração.
Impacto no agronegócio: oportunidades e salvaguardas
O agronegócio brasileiro está no centro das atenções. O acordo elimina tarifas de importação para 77% dos produtos agropecuários que a UE compra do Mercosul, beneficiando itens como café, frutas, peixes e óleos vegetais.
Contudo, o tratado inclui “salvaguardas” que preocupam o setor. A União Europeia poderá suspender temporariamente benefícios tarifários caso as importações do Mercosul cresçam muito rapidamente ou prejudiquem produtores locais.
Produtos sensíveis como carnes, açúcar, arroz e etanol terão acesso limitado por cotas, não por livre comércio total. Especialistas alertam que essas travas podem restringir o potencial exportador do Brasil em commodities clássicas.
Redução de tarifas e benefícios industriais
A indústria europeia ganha acesso privilegiado ao mercado sul-americano. O Mercosul eliminará tarifas sobre carros, máquinas, produtos químicos e farmacêuticos vindos da Europa.
Para o consumidor brasileiro, isso pode significar produtos importados mais baratos e de maior qualidade. Por outro lado, a indústria nacional enfrentará concorrência mais acirrada, o que exigirá ganhos de produtividade e modernização.
O acordo também estabelece regras comuns para compras governamentais, propriedade intelectual e serviços. Consequentemente, empresas brasileiras poderão disputar licitações na Europa em condições de igualdade com concorrentes locais.
Contexto geopolítico e “medo” estratégico
O fechamento do acordo foi impulsionado por um cenário global instável. A guerra na Ucrânia e as tensões comerciais entre Estados Unidos e China aproximaram Europa e América do Sul pelo que analistas chamam de “medo geopolítico”.
A União Europeia busca reduzir sua dependência de minerais críticos controlados pela China, como o lítio, essencial para baterias elétricas. O Mercosul surge como fornecedor confiável e alinhado aos valores ocidentais.
Além disso, o tratado é visto como um “seguro” contra o protecionismo. Com a possibilidade de novas tarifas globais sob a influência de Donald Trump nos EUA, os dois blocos buscam garantir fluxo comercial estável e regras claras.
Próximos passos
Após a assinatura em 17 de janeiro, o acordo precisará ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos congressos dos países do Mercosul para entrar plenamente em vigor. Esse processo legislativo pode levar tempo, mas partes comerciais do tratado podem ser aplicadas provisoriamente antes da ratificação final.
O governo brasileiro celebra o desfecho como uma vitória do multilateralismo. O vice-presidente Geraldo Alckmin destacou que o acordo promove investimentos, sustentabilidade e fortalece o comércio com regras claras.
Agora, o desafio será preparar o setor produtivo para a nova realidade competitiva. O Brasil mira, na sequência, acordos com outros parceiros estratégicos como Canadá, Índia e Emirados Árabes.
Última atualização em 10 de janeiro de 2026
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